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Ivanildo Martins Gonçalves

Maria Cecília

XXV Coletânea de Contos e Poesias - 2015

Célinho é um garoto muito agitado e não para nem por um segundo! Corre para todo lado, mexe em tudo e raramente me deixa descansar. Que garoto traquina! Meu amigo Dr. Olavo disse que o garoto é normal, e que não há nada de errado com ele. À medida que for crescendo, vai se aquietando, e depois ficará como todas as crianças.
Apenas depois do almoço, quando eu me sento na cadeira de balanço para fazer a tão importante “sexta”, ele se deita no meu colo e cochila comigo. E agora, enquanto ele cochila, eu sonolento, olho a estrada empoeirada que se perde no horizonte e relembro o passado não muito distante...
Rememoro aquele dia quente, em que eu descansava na varanda de casa, de onde costumava ver chegando pela estrada de chão empoeirada, os meus visitantes ou o retorno dos meus familiares. Naquela tarde conheceríamos “Maria das Flores”, a nova namorada do meu filho. A bela jovem integrante da famosa e rica família “Das Flores”.
Ali, naquela cadeira de balanço, eu costumava desfrutar horas pensando na minha amada Cecília... Embora fosse uma prostituta, o que antes eu repudiava tanto, tinha cativado o meu coração. Como é o destino! Era meiga, carinhosa, jovem e o mais importante; fazia-me feliz. Não era apenas o sexo. Tinha muito mais que isso entre nós dois, e não era o dinheiro, pois eu nunca pagara pelos seus carinhos, desde a primeira vez em que nos encontramos. Sempre nos encontrávamos fora da Casa Rosa (esse era o nome do pequeno bordel), pois eu precisava evitar ser visto naquela casa e na verdade entrei poucas vezes lá.
Embora eu estivesse ficando cada vez mais apaixonado pela jovem, sabia que ela não era apaixonada por mim. Por certo gostava de mim, mas apenas por que me achava diferente dos outros homens, e eu a tratava bem, o que poucos faziam. Nos últimos tempos eu notei que a minha doce Cecília parecia muito distante e logo começou a usar desculpas para dificultar nossos encontros. Eu ficara sabendo que, havia várias noites que ela se recusava a descer do quarto para receber os seus “visitantes”. Nesse momento em que eu divagava em minhas loucas lembranças, às vezes incomodado pelas indagações da minha esposa, que cada vez mais distante, já não me cativava como outrora. Vi surgir no horizonte, na lombada da estrada, uma nuvem espessa de poeira que indicava a chegada de alguém. Os cachorros latiam intensamente, correndo em direção à carruagem, anunciando sua chegada e ao mesmo tempo desejavam boas-vindas aos visitantes. A carruagem contornou a casa, e ouvi um vozerio confuso de pelo menos três mulheres que acompanhavam meu filho, ao descer da carruagem. Entraram pela porta lateral e, acompanhados pela minha esposa, atravessaram a sala vindo pelas minhas costas. Ouvi então, a voz do meu filho:

  1. Pai. Enfim chegou o grande dia! Hoje você conhecerá a minha adorada. Aquela que aprisionou o meu coração.

Embora “Maria das Flores” fosse de boa família, eu já estava saturado das loucas aventuras do meu filho, que trocava de namoradas como se troca de roupa e tinha de ficar ouvindo sua mãe o defender dizendo: “os tempos mudaram e você está atrasado demais”. Ah, se ela soubesse...
Bem, mas dessa vez parecia que meu filho tinha tomado juízo.
Estava apaixonado e não parava de falar em Maria.
Minha esposa estava ansiosa por conhecê-la, eu apenas aguardava o momento, sem qualquer motivação. Apenas dedicava meus pensamentos a minha adorada Cecília.
Com os olhos ainda fixos na estrada, expressando total desinteresse em olhar para trás e contemplar as beldades que estavam às minhas costas, apenas ajeitei o chapéu, suspirando profundamente. Já ia me virar, na cadeira, quando meu filho continuou suas falas:

  1. Apresento-lhe, a minha adorada, Maria Cecília das Flores!
  2.  

Foi como se o mundo, bruscamente, desabasse de uma só vez. Firmei o corpo, levantei-me, e girando lentamente, olhei direta e firmemente nos olhos da doce Cecília.
Que peça o destino nos pregava!

  1. Como vai Maria Cecília? Realmente você é muito linda. Bem mais do que eu pude imaginar.
  2.  

Seus olhos arregalaram-se e o seu rosto empalideceu.

  1. Muito... prazer... senhor! – Cecília suspirou fundo, firmou o peito e recobrando o seu equilíbrio, continuou – Embora eu me chame Maria Cecília das Flores, gosto que me chamem apenas de Maria, por favor.
  1. Vamos abrir um bom vinho e comemorar – Bradou o meu filho, totalmente alheio ao que acontecia.

 

Não fazia idéia e nem mesmo de longe percebia que eu e Cecília nos olhávamos demorada e estranhamente nos olhos.  Trocamos milhares de indagações apenas com nossos olhares.
Passaram-se algumas horas, Maria Cecília, depois de várias tentativas frustradas, conseguiu se aproximar de mim para conversarmos a sós.

  1. Estou completamente transtornada com a seqüência dos fatos, peço que me perdoe se está magoado comigo, mas eu e seu filho nos amamos e imploro que nos dê a oportunidade de sermos felizes.
  1. Cecília...

 

  1. Maria. Por favor, senhor! (falou com a voz firme)
  1. Correto. Maria, você não pode fazer idéia do que se passa em minha cabeça e em meu peito. Por muitas vezes eu imaginei você feliz ao meu lado, como minha mulher e, no entanto, agora... Mas pode ter certeza de que, o que eu mais quero é a felicidade sua e do meu filho. Afinal...

 

  1. Senhor, mais uma vez lhe peço perdão. Sei o quanto é ou era, apaixonado por mim. Sei que é um homem bom, ama e quer o melhor para o seu filho. Não sou mais aquela prostituta.
  1. Nesse momento, minha inocente esposa, sorrindo, entrou na sala e nos chamou para jantar, o que atendemos prontamente, retribuindo-lhe o sorriso e nos esforçando em dissimular as emoções.

 

A medida que o tempo ia passando, fui me acostumando a olhar para Maria Cecília, que raramente ia a nossa casa, como minha nora. Na verdade o tempo passou ligeiro e após um ano de namoro, meu filho me procurou para conversar e muito desconcertado, contou a verdadeira história de Maria Cecília. Pediu desculpas, queria casar-se em breve e não podia fazê-lo sem me contar toda a verdade. Sua mãe sabia desde o início, mas a pedido do filho, conservou em segredo.

  1. Pois é pai, demorei a lhe contar por que achava que não ia aceitar meu casamento com uma ex-prostituta, mas como eu poderia explicar a ausência dos pais dela na cerimônia e na festa do nosso casamento? Ou como eu poderia explicar a realidade pobre e simplória da família “Das Flores”?

 

  1. Por falar nisso pai, porque o senhor nunca pergunta nada sobre a família de Maria Cecília?  Nunca se preocupou em conhecê-los.  Embora tenha sido melhor pra mim, me estranha esse seu desinteresse.
  1. Filho, eu tenho muitos amigos, alguns deles andam por terras distantes e por hábito falam mais do que o necessário. Fico sabendo de muitas coisas...

 

De repente fui despertado daquelas minhas lembranças e voltei rapidamente ao presente.
Meu Deus, Célinho está acordando. Daqui a pouco ele pula do meu colo, recomeça nas suas traquinagens e tenho de ficar de olho no meu neto, porque se ele se machucar, sua mãe fica uma arara! Maria Cecília é a mulher mais meiga e bondosa do mundo, mas quando fica brava...

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

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