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Ivanildo Martins Gonçalves

Lucidez ou Loucura

Sentado no jardim, tomando sol nesse banco ao lado da roseira, num instante de lucidez recordo o passado sombrio. Havia alguns dias, talvez mais de um mês não sei muito bem, estava tendo sonhos ruins. Terríveis pesadelos que me incomodavam muito.

Eram tão realistas, que quando acordava ficava em dúvida se era sonho ou realidade!

Transformaram-se na rotina de todas as noites e por isso me preocupavam tanto, a ponto de eu decidir procurar um especialista. Será que eu estava ficando louco?

Não, que nada. Eu era muito inteligente e equilibrado para enlouquecer.

O telefone tocou pela madrugada. Era quatro da manhã e em sono profundo eu não o escutei. Meu filho me acordou receoso em dar a má notícia.

Em frases curtas, diante de meus monossílabos, contou-me que minha sogra falecera e que precisávamos avisar minha dulcíssima esposa, que dormia em sono profundo ao meu lado.

Levantei-me, fui ao banheiro e, após pensar um pouco, concluí que era melhor esperar o dia amanhecer para dar a notícia fatídica, afinal não havia nada que pudéssemos fazer até o amanhecer.

Meus cunhados já estavam tomando todas as providências que envolviam a circunstância.

Deitei-me novamente e fiquei pensativo, totalmente perdido entre os últimos fatos...

Minha consciência estava pesando. Sempre fazia brincadeiras, contava piadas sobre morte de sogra e às vezes chegava a irritar minha digníssima sogra.

E o pior é que quanto mais eu a irritava, muito mais me divertia!

E agora esse acontecimento tão cruel.

Será que aqueles sonhos eram avisos? Infarto fulminante. Nossa, que loucura! Ela nem mesmo estava doente e era uma “campeã” de saúde...

Bem, de qualquer forma, logo pela manhã teria de dar a terrível notícia a minha amada, tão querida ao coração. Não seria nada fácil. Embora as duas brigassem muito, sei que se amavam demais, afinal filha é filha e mãe é mãe. Perdido em pensamentos, e vencido pelo cansaço, acabei adormecendo novamente.

Acordei às sete e meia da manhã. Meu filho havia saído, estávamos apenas eu e minha mulher em casa. Armando-me de coragem, despertei minha amada. Suavemente, e com cuidados, fiz com que ela assimilasse aos poucos a notícia fatídica. Ao final da conclusão dolorosa do fato, ela ficou parada... Estática... De repente, entrou numa crise de choro convulsivo, colocou as mãos sobre o peito, e pareceu-me sentir falta de ar. Nesse momento, tonteou e foi ao solo, permanecendo com os olhos perdidos, já sem os sentidos. Aí, eu me desesperei, não sabia o que fazer; parecia que estava tudo sob controle, eu fora tão cuidadoso ao dar a notícia...

Num estalo, decidi instintivamente levá-la ao hospital, e por incrível que pareça foi diagnosticado um infarto! Seria coisa de sangue? Genético? Meu Deus que loucura!

Eu andava de um extremo ao outro dos corredores do hospital, perguntava às recepcionistas e aos enfermeiros que, apressados, não me davam a esperada atenção.

O médico não aparecia e ninguém me dava notícias sobre o estado dela. Fiquei assim, desesperado, abandonado na dor, perdido, durante quase uma hora. Horrores passavam por minha mente, quando de repente lembrei-me do velório.

E agora? E o velório da minha sogra?

Eu tinha de avisar a família sobre o ocorrido. Com certeza seria outro choque terrível, mas eles tinham de saber logo e já deviam estar estranhando a nossa ausência no velório.

Bem, tinha de ser feito. Peguei o celular e liguei para um dos meus cunhados. Optei pelo mais equilibrado dos quatro e lhe contei tudo com detalhes.

Ele repetiu boquiaberto:

  • Minha irmã teve um infarto... Ao saber da morte da minha mãe...

Em seguida disse-me aos berros:

  • Seu louco! Minha mãe não morreu, não há nenhum velório. Você enlouqueceu por completo!

A partir desse instante meu mundo parou, eu não ouvia mais nada, estava como que alucinado.
O médico se aproximou e completou a dose do alucinógeno fatídico...

  • Senhor. Essa é nossa assistente social e ela o ajudará em tudo o que for preciso e estiver ao nosso alcance. Lamentamos informar, mas foi um infarto fulminante... Sua esposa não resistiu.

Foi tudo um grande pesadelo, que eu fico recordando constantemente em meus loucos momentos de lucidez entre os muros desse manicômio

 

  

 

 

 

 

 

 

 

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