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Ivanildo

Ivanildo Martins Gonçalves

O Encontro

       Mal começara o ano, e por volta do meio-dia, de um dia chuvoso, como em todo principio de janeiro, eu e três velhos amigos estávamos almoçando em um pequeno restaurante popular da cidade. Um ambiente simples e aconchegante, compatível com o bolso da maioria, e que servia uma refeição saborosa, talvez melhor do que alguns grandes restaurantes. Reginaldo é repórter de um jornal prestigiado, Alberto é dentista renomado, Paulo é funcionário público, e eu industriário e poeta iludido. Reginaldo me convidara, assim como a Alberto e Paulo para almoçarmos. Reginaldo queria nos contar algo, parecia triste, notava-se que estava com problemas e queria desabafar.
Conversava à mesa com o Alberto e o Reginaldo, enquanto Paulo  passava pela linha de servir. Parecia indeciso entre as opções que a casa oferecia. Desde que nos conhecemos no colégio, Paulo sempre ficava enrolado em tudo, não era de se admirar!
Na maioria das vezes em que saíamos, alguém aprontava “alguma”, e ficávamos sempre esperando, ansiosos, pra ver quem seria a “bola da vez”. Alberto estava sentado à minha frente e com a boca cheia, comentava sobre sua tumultuada passagem de ano, na noite anterior. Ás vezes, sem que percebesse, projetava um caroço de arroz ou uns grãos de farinha, mas tudo bem. A gente fingia não perceber.

- Pessoal foi terrível, a Aninha não dormiu, ficou acordada a noite toda!

Reginaldo com semblante meio caído se manifestou:

- Ah, Alberto! Neném é assim mesmo.

     Eu permanecia quieto e nesse momento o Paulo voltava da linha de servir, com meio sorriso escondido por trás de sua “montanha”, delicadamente montada no prato e sentou-se à mesa.
Alberto continuou a conversa:

- Sei disso Reginaldo, mas o problema era com o estrondo dos fogos. A cada estrondo, ela se assustava e entrava em desespero. Nada acalmava a coitada!

Sem saber o rumo da conversa, Paulo, que acabara de sentar-se, coitado, pegou o bonde andando.

- Ihhh, rapaz! Não foi só a sua não. Minha cachorra me deu o mesmo problema.

Pegamos todos a rir, até mesmo o Reginaldo que estava triste.  Paulo, que pegou o “bonde andando”, ficou completamente desconcertado sem saber o que levou todos a rirem daquele jeito. Reginaldo, sentado de frente ao Paulo e sensibilizado com o constrangimento do mesmo, começou a lhe explicar o seu “tombo do bonde”, o que o deixou mais constrangido ainda.

- Não esquenta, não, Paulo, essas coisas acontecem - acrescentou Alberto.

- Eu também deixei um furo terrível!

- Estávamos à mesa. Eu, minha esposa com a Aninha no colo, meu filho e a Jussara, uma de minhas sobrinhas mais queridas. Tomávamos o café da tarde, quando o desagradável do telefone tocou. Minha esposa atendeu prontamente:

- Alô!

Era a jararaca da minha cunhada e eu permaneci calado em respeito à visita (minha sobrinha) que estava à mesa.

- Oi, tudo bem?- Aqui tá tudo bem.
- Mesmo?Ah, tá! Ontem eu saí com o Alberto...
- Mana, você deve ter ligado quando eu não estava em casa.
- Deixe-me falar...
- Tá bom, fala você.
- Ah! Tá...
- Ahnnnn, sei...
- Olha, não sei se tenho, vou dar uma olhada.
- Espere um pouco vou pegar a  minha agenda.

Largou o telefone e sem demora foi pegar sua bolsa no quarto. Quando ela tirou a agenda da bolsa, fiquei estupefato! Uma agenda enorme! Tinha quase o tamanho da bolsa. Ela voltou ao telefone e com muito custo consegui segurar minha crítica até o término do diálogo ao telefone. Quando ela repôs o fone no gancho, detonei...

- Isso lá é agenda pra se carregar numa bolsa?
- Olha amor... - Ela mal começou a falar e...
- Não tinha uma agenda mais decente de onde saiu essa?
- Alberto... Eu ganhei de Natal!
Finalmente ela conseguiu explicar. Haja estupidez! Antes eu tivesse me calado...
- Amor, me desculpe, mas...

Infelizmente a interrompi outra vez...

- Tem de ser uma pessoa muito estúpida pra dar uma agenda desse tamanho, de presente pra uma mulher!

Enfim, veio a bomba!

- Ah é Alberto... Então explica isso pra sua sobrinha aí na mesa, foi ela quem me deu.
Na mesa do restaurante, novamente a gargalhada foi geral! Chamávamos a atenção pelo barulho que fazíamos. As outras mesas olhavam entre curiosas e silenciosas.
- Imaginem só... (Paulo parecia ter vencido o constrangimento).
- Aconteceu algo engraçado comigo também.
- Até parece que isso é novidade (Alberto afirma irônico e pegamos todos a rir novamente).

- Anteontem à tarde, eu retornava do trabalho depois de uma cansativa jornada e o ponto de ônibus estava lotado. Eh! Rotina de todos os dias. Vida de trabalhador é assim mesmo; acordar cedo, pegar ônibus lotado, trabalhar duro o dia todo e na volta, novamente, ônibus lotado! Peguei a carteira como de costume, tinha apenas um Real, mas ainda restava o último vale-transporte. No outro dia... Bem outro dia seria outra história! Separei o vale transporte para pagar a passagem, peguei o último realzinho e fui comprar um chiclete no trailer; sabem que eu adoro mascar chicletes.

- Isso é verdade, o Paulo parece uma criança grande (gargalha o Alberto).
- Bem, desenrolei o chiclete e olhei a figurinha. Cada figurinha é sempre uma surpresa, às vezes vem repetida, mas costuma vir umas novas e é divertido conferir. Ôpa!  Vinha um ônibus. Não era o meu. Passaram vários, mas o meu não vinha. No ponto de ônibus tinha uma lixeira que era um dos meus poucos divertimentos. Fiz uma bolinha com a figurinha do chiclete, mirei bem e arremessei...Certeiro! Também, já estou acostumado. O arremesso é sempre certeiro.Ôpa! Lá vinha outro ônibus... Saí correndo, quase derrubei a lixeira e não adiantou nada.Tive de enfrentar uma enorme fila para entrar no ônibus, mas tudo bem... O pobre já está acostumado com isso.O cobrador do ônibus estava de mau-humor. Isso também faz parte, afinal em horário de pico e com o ônibus lotado de pessoas mal educadas reclamando, é natural.
Enfiei a mão no bolso, peguei o vale-transporte, entreguei ao cobrador...
Xiiii! Veio a figurinha do chiclete! O vale-transporte foi parar na lixeira, naquele arremesso certeiro do ponto de ônibus.

Nossas gargalhadas feriram o silêncio do restaurante, e ouvimos murmúrios de indignação vindos das outras mesas.

- Caramba! Esse chiclete lhe custou caro hem, Paulo?

- Muito caro, Alberto, mas do Paulo a gente pode esperar tudo. Mas e aí Reginaldo, o que tem a nos dizer? (Perguntei para irmos ao assunto que motivou o nosso encontro do dia).

Foi como se o restaurante inteiro se calasse, tal foi o silêncio que reinou e então o Reginaldo começou a narrar:

- Bem, infelizmente eu não tenho algo engraçado para lhes contar, mas gostaria que publicassem isso de alguma forma. Na verdade, estou muito triste pelos últimos acontecimentos.

Eu descia a Rua Vicente de Carvalho, numa cidadezinha onde fui enviado a serviço, assoviando, olhando para o chão e ao elevar os olhos, maravilhei-me com o que vi; Ela era esplendidamente linda! Meus olhos lhe eram indignos, mas estavam indefesos naquele momento. Parado a sua frente, eu lhe impedia a passagem... Pedi desculpas e dei um passo para o lado, coincidentemente ela foi para o mesmo lado e acabamos nos trombando. Sorrimos, pedimos desculpas, ela seguiu e de vez em quando olhava para trás, ainda sorrindo. No dia seguinte voltei à rua Vicente de Carvalho no mesmo horário, para rever a bela moça. Foi longa a espera, mas valeu a pena. Ela subia a rua devagar elegante como no dia anterior... Ainda distante começou a sorrir em minha direção e eu fiquei encantado com aquela jovem. Seu nome era Dora, era nova na cidade e vendia flores (o que é raro hoje em dia nas grandes cidades) pelas ruas, praças e avenidas. Era solitária como eu e passamos a nos encontrar todas as tardes. Numa antiga árvore da Rua Vicente de Carvalho, eu desenhei um coração no qual ela escreveu os nossos nomes. Disse que conforme a árvore crescesse, também cresceria o coração e com ele o nosso amor. Ali, embaixo daquela árvore, passou a ser o nosso ponto de encontro de todas as tardes. Estávamos apaixonados! Trocamos muitos beijos, mas não chegamos a fazer amor. O jornal me transferiu de cidade, trocamos correspondências loucas e apaixonadas por mais de um mês. De repente, suas cartas pararam de chegar e as minhas, logicamente, ficavam sem respostas. Tirei férias do trabalho e voltei a cidade. Tentava obter informações entre conhecidos, mas ninguém a conhecia e não sabiam dela. A dona da pensão onde ela morara, temporariamente, disse que ela era estranha. Não conversava com ninguém e desaparecera subitamente. Como levara todos os seus pertences, provavelmente teria partido para sempre. Todos os dias eu descia a rua Vicente de Carvalho, na esperança frustrada de rever minha Dora. Foi assim por quase dois meses, até que num desses dias, em nosso antigo ponto de encontro, parei em frente à velha árvore e notei que havia algo mais escrito embaixo do antigo desenho: “São Roque”. Não pensei duas vezes, parti imediatamente para a cidadezinha de São Roque. Era uma cidade muito pequena e quase todos se conheciam, mas ninguém sabia da minha amada e querida Dora. Eu estava sentado na praça e desanimado, observava um funeral que passava, com todos a pé, acompanhando o caixão, tal qual era o costume nas pequenas cidades. Perguntei a um garoto que vendia doce e acompanhava a pequena multidão sobre quem havia morrido.

- Foi Carlota, a vendedora de flores.  

No mesmo momento, levantei num sobressalto e corri em direção ao funeral. Com certeza, alguém entre eles deveria conhecer minha Dora, que, como a falecida, também vendia flores. Entrei no meio deles e os acompanhei em silêncio respeitoso por todo o trajeto. Ao me aproximar do caixão, notei que o mesmo tinha um tampo de vidro e não resistindo a curiosidade, fui olhar através do mesmo. Dora! Gritei estarrecido. É a minha Dora. Meu Deus, que destino!Triste destino. Ao partir para São Roque, pensava que ela pudesse ter conhecido outro, ter se apaixonado e eu tê-la perdido para sempre. Imaginava mil coisas, mas nunca que minha Dora pudesse estar morta. Todos me olhavam entre respeitosos, assustados e admirados.Um rapaz que segurava uma das alças do caixão, passou-a a um outro jovem e veio me socorrer...

- Desculpe-me meu amigo; lamento a sua dor, mesmo sabendo que é menor que a minha dor de irmão. Não sei quem você é, e nem sei da sua história, mas é provável que sua Dora esteja realmente dentro desse caixão.

Incapaz de dizer qualquer coisa eu apenas gesticulava, atônito, de boca aberta...
- Voltou à cidade há dois meses, eu não sei por onde ela andou e acredito que você poderá me ajudar nisso. Aqui na cidade de São Roque sempre foi conhecida como Carlota e lamento lhe informar, mas o seu verdadeiro nome era Carlos Rodrigues de Almeida.

  

 

 

 

 

 

 

 

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