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Ivanildo

Ivanildo Martins Gonçalves

Quarto 619

    A cada dia, todo o aspecto de um relacionamento, até então a distância, mudava em alguns detalhes. Na ultima semana que antecedeu àquele dia o clima era totalmente diferente. Muita ansiedade e uma luta contra o tempo, pois os meus dias se tornaram longos ao extremo. Era como se, nessa semana, cada dia correspondesse a dez dos dias das semanas iniciais!
O grande dia que seria um marco importante, quando o relacionamento deixaria de ser “à distância”. Poderia ser o fim desse relacionamento e o início de um outro, não sei...
Um relacionamento a distância passaria a ser de contato, de toques e quem sabe, de profundas intimidades.
Um relacionamento de paixão passaria a ser de amor, ou simplesmente passaria de paixão para uma grande amizade! Poderia ser simplesmente o “fim”, mas poderia ser também o “começo”.
E, às vezes, eu ficava imaginando se, a quilômetros de distância, o “outro lado” do meu coração passava pelas mesmas emoções.
Finalmente chega o grande dia!
Já nas vésperas daquela grande noite muitas coisas haviam sido preparadas, pois eu planejava voltar para casa somente três dias depois.
A ansiosa espera foi longa, foram as horas mais longas da minha vida!
Tentei dormir na noite anterior, mas a tentativa foi em vão.
Muitas coisas passavam pela minha cabeça. Como ela iria me receber?
Como costumava me dizer: “será que eu caberei no seu abraço”? Essa coisa de se relacionar com as pessoas por cartas é complicada.
Será que ela gostará de mim?
Pessoalmente, no físico mesmo, somos tão diferentes. Seja na aparência, nos modos, nas expressões...
Uma série extensa de coisas que se observa sem se dar conta.
E estava chegando o grande momento, tão esperado há dezenas de dias!
Cheguei já de noitinha, passei em casa, tomei um banho rápido, não me arrumei com luxo, pois na verdade nem mesmo o tenho.
Saí de casa, ansioso, mas prudentemente dirigi com calma até o hotel onde ela estava hospedada. Em frente à porta onde se lia “619” peguei meu celular e liguei.
Ela atendeu com a voz doce de sempre, perguntei confirmando o número do quarto e lhe disse que estava em frente ao mesmo a sua espera.
Ela abriu a porta lentamente, com toda a suavidade que lhe é peculiar e nossos olhos se encontraram pela primeira vez.
De suas faces saiu um sorriso tímido, mas tão suave quanto eu já o esperava ansioso.
Então, eu lhe disse o quanto ela era linda! Muito mais do que imaginava.
Rosto suave e angelical, pele morena meio pálida, olhos apertadinhos, dentes perfeitos, boca grande, porém, doce e delicada.
Corpo alto e esbelto, com uma cintura fina, quadris largos e um jeito nobre de “Madona”. Cabelos encaracolados, meio que rebeldes, mas lindos!
Vestimenta e adornos discretos. Um sorriso ameno, delicado, tão cativante que nunca poderei esquecer!
O andar, ah! Aquele andar. Tão suave quanto uma pena perdida ao vento!
Caminhamos para a cama. Eu a seguia encabulado e ao mesmo tempo sedento pelos seus lábios que desejava há tempos.
Sentou-se na cama, sobre as pernas cruzadas, numa posição como que de yoga, de frente para cabeceira e eu deitei-me de lado, a sua frente, usando os travesseiros para apoiar a cabeça.
Ela não me tocava, apenas sorria e estava muito tímida. Ambos estávamos tímidos!
A iniciativa dos carinhos, a princípio bem suaves, resumindo-se a alguns toques sutis dos dedos deslizando sobre os seus  braços partiu de mim.
Vez por outra, com toda a paciência que eu não tenho, meus dedos fugiam das viagens pelos seus braços e saltavam às suas faces num carinho leve. Tão respeitoso que mais parecia um toque de alma a alma.
Minha boca salivava enquanto os meus lábios mendigos imploravam, como que desesperados, pelos seus.
De mãos dadas a esses carinhos correram alguns minutos de conversa, risos e toques sutis, até que eu abusadamente, ergui-me  começando a beijar seus lábios, externa e suavemente, invadindo sua boca em seguida.
Foram vários beijos até que nossas bocas “se ajustassem” e o beijo alcançasse a sua plenitude.
Em pouco tempo, num tempo bem mais curto que aquele entre a porta e esse primeiro beijo, nossos corpos se encontraram e se perderam nos delírios dos desejos.
Fizemos amor maravilhosamente por duas vezes naquela noite.
Nossas almas e nossos corpos se encaixaram, se adoraram e se amaram no verdadeiro sentido da palavra. Ela era exatamente como eu imaginava, não me decepcionara em nada, pelo contrário, me surpreendia a cada momento com detalhes que eu desconhecia e que me encantavam ainda mais.
Aquele quarto foi nosso ninho de amor, não me lembro exatamente por quantas horas,
perdi a noção do tempo, dei atenção apenas a ela e aos nossos desejos.
Ficamos longo tempo deitados lado a lado, ela com a cabeça sobre meu peito...
Permanecíamos abraçados enquanto conversávamos sobre nós e ríamos muito! Sempre sobre a cama...
E, embora relutantes, adormecemos abraçados. Foi maravilhoso! Por muitas vezes eu incansável dizia que ela era linda e ela, sem graça, se limitava a dizer: “você é um sedutor”.
Embora a última noite tenha sido bem mais curta, como nossa intimidade já havia aumentado, nossos beijos se tornaram mais intensos e nosso amor foi divino!
Amamo-nos mais deliciosamente que na noite anterior.
Assim como outrora, conversamos e rimos muito!
Mas, como tudo o que é bom passa rapido, lamentavelmente chegou a triste despedida. O final de um momento tão intenso quanto era  esperado.
E que me será inesquecível!
Tomamos o café da manhã juntos e partimos para o aeroporto.
Enquanto aguardávamos o embarque, sentados lado a lado, nos olhávamos e parece que já sentíamos uma saudade antecipada. Meus olhos fixavam-se no seu rosto na ânsia desesperada de gravar, como num filme, as imagens do seu sorriso.
Minha boca sôfrega lamentava a ausência dos seus lábios, que já não podiam mais me beijar.
Chegara o momento.
Um último beijo de despedida, quase que roubado, olhares e sorrisos...
Um adeus!
Assisti a sua partida, triste e já saudoso.
Eu voltaria àquele quarto milhões de vezes, para ter novamente o seu sorriso, seus carinhos e seu amor!
Tenho a certeza de que se eu voltasse ao “quarto 619”, ainda no outro dia, ouviria as paredes chorando solidárias ao meu coração.
Chorando o vazio da ausência do seu olhar, seu sorriso, seu charme, seu andar, seu calor, seu cheiro, sua beleza e suavidade sem par. O mesmo vazio ficou entre os meus braços, entre os meus lábios e no meu olhar.

  

 

 

 

 

 

 

 

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