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JJ Sales


O último trago

Segunda feira, dezoito de fevereiro de mil novecentos e sessenta e três, Avenida Paulo de Frontin, Volta Redonda, quinze horas. Como sempre acontecia nesse horário, reinava o mais absoluto silêncio, só interrompido pelo trotar de animais que regressavam após transportar latões de leite da periferia rural até o laticínio que funcionava às margens da linha férrea e muito raramente pelo ruído característico dos pneus dos pouquíssimos automóveis que transitavam por sua charmosa pista de paralelepípedos.
As árvores que hoje enfeitam essa avenida tinham sido recentemente plantadas e para não serem destruídas eram protegidas por estruturas de madeira em forma triangular e caiadas de branco.
Nos horários de pouco ou nenhum movimento, como, por exemplo, por volta das quinze horas, era comum após cumprir minha rotina profissional, encostar-me em uma destas estruturas e contemplar a avenida deserta. Não era fácil para mim, adaptar-me a esse cotidiano, há alguns meses atrás naquele horário, após cumprir as obrigações escolares brincava com garotos da minha idade, brincadeiras inocentes de crianças pobres da zona rural. Agora, para ganhar meio salário mínimo por mês, cumpria uma jornada diária não inferior a treze horas de segunda a segunda.
As horas se arrastavam tão lentamente que só a certeza que o dia do pagamento era ansiosamente esperado pela minha mãe e meus irmãos, dava-me forças para suportar tanta exploração. Assim, encostado na estrutura de madeira com as mãos acima da cabeça, sustentadas pelos dedos entrelaçados e uma das pernas dobrada para trás, contemplava seu calçamento desde a linha férrea até a ponte sobre o Rio Paraíba. 
Naquela época havia pouquíssimas imóveis ao longo da Paulo de Frontin e esse déficit permitia uma completa visão tanto do lado do bairro Aterrado, onde se destacavam os mais misteriosos que imponentes edifícios Mineiro e Bandeirante, como do outro, onde se via um vale com vegetação característica que separava a tradicional avenida de um imenso canteiro de obra responsável pelo surgimento do que é hoje o bairro Nossa Senhora das Graças.
Objetivando facilitar a chegada daqueles trabalhadores até ao “Bar e Mercearia São Jorge” – esse era o nome fantasia do estabelecimento comercial onde eu trabalhava – meu patrão mandou abrir uma trilha por através deste vale. Esse foi certamente o primeiro acesso do bairro Nossa Senhora das Graças com a Paulo de Frontin.
Quase em frente ao Palácio 17 de Julho havia um bar com balcão de alvenaria alto, cujo proprietário era um senhor magro de bigode, que usava óculos. Além do balcão altíssimo, outro destaque nesse estabelecimento era a exposição de um pôster, tão amarelado quanto empoeirado acima das prateleiras. O personagem “em tela” se não me falha a memória era ele mesmo. Foi nesse estabelecimento que pela primeira vez na minha vida usei um aparelho telefônico. Eu tinha uns treze anos.
Daí para frente no sentido da linha férrea em ambos os lados, já havia uma maior concentração imobiliária das quais se destacava a antiga Delegacia de Polícia e a 1ª Igreja Metodista.
Do lado oposto ao prédio da Prefeitura no sentido da ponte, via-se uma casa de material de construção denominada “Madeireira Comercial”, imediatamente em seguida um prédio comercial de dois andares com lojas no térreo e apartamento em cima e em frente onde eu trabalhava, a obra interrompida de um duplex geminado em que parte de sua construção fora equivocadamente plantada em terreno alheio. Daí até a ponte, de ambos os lados não havia muita coisa: algumas construções antigas e de moderno apenas a residência de um tradicional empreiteiro.
Em uma das vezes em que estava em meu “observatório”, bem ao longe no sentido da ponte, vislumbrei a figura de um homem que à medida que se aproximava ia sendo possível identificá-lo: negro, magérrimo, dois metros de altura. Usava um velho chapéu de feltro marrom com abas caídas, paletó preto surrado, cujas mangas curtíssimas, deixavam à mostra metade do seu antebraço e denunciava não ter sido a referida peça confeccionada sob suas medidas. O mesmo se podia dizer das calças, pelo menos um palmo menor do que suas pernas resultavam na exibição involuntária de suas cadavéricas tíbias e seus pés mergulhavam num par de botinas de cano curto com “orelhas”.
Trazia em um dos braços uma bolsa confeccionada de tecido com listras multicoloridas, lâminas de aço suportando a armação e alças de arame revestidas com espaguete de plástico e ornamentadas com duas contas.
Ao aproximar-se de mim curvou-se como se quisesse mostrar-se menos alto, ensaiou um sorriso simpático, exibiu uma arcada alva perfeita e com a voz cansada e rouca de quem caminhava exposto à poeira perguntou-me olhando para dentro do estabelecimento.
– Tem Anis? Respondi que sim, sem conseguir dissimular minha estranheza ante àquele pedido. Sem tirar os olhos do homem, como se aguardasse o complemento do pedido, comecei a desvencilhar-me da estrutura protetora da árvore e iniciar a caminhada rumo ao interior do bar para atender o, pelo menos para mim, inusitado pedido.
O estranho olhava-me tentando esboçar a mesma simpatia, embora só conseguisse evidenciar a ansiedade em saciar a “sede”. O que ele não sabia era de que eu não tinha a menor idéia do que vinha ser “aquilo”, o tal Anis.
A despeito da dúvida, dei a volta atrás do balcão de madeira, fui até a prateleira e voltei depositando sobre o mesmo, dois tabletes do alvejante de roupas Anil Colman e permaneci em silêncio, absolutamente convicto de que não era aquilo que me havia sido solicitado. Bem, mas se eu tinha tanta certeza disso, então por que dois tabletes do alvejante, afinal um não seria suficiente? – porque ele havia pedido no plural: “Anis”.    
Visivelmente decepcionado, o homem espalmou as mãos sobre o balcão curvando-se agora assustadoramente para mim, fez com os olhos uma rápida inspeção nas prateleiras e repetiu quase soletrando:
– Anis – disse instruindo sua fala com gestos que sugeria tratar-se de uma bebida.
Após sua saída, permaneci por alguns segundos recobrando do constrangimento e olhando para os tabletes de alvejante que pareciam também rirem de mim. Levantei o sobrolho, inspecionei todo o ambiente sem mover a cabeça, como se isso me mantivesse incógnito e minha gafe, passasse desapercebida.Nessa altura, de duas coisas eu não tinha dúvida, primeiro: aquilo que aquele estranho solicitara existia e segundo definitivamente eu não tinha a menor idéia do que se tratava.
Ao longo dos meses, possivelmente até anos, esse homem religiosamente, pelo menos uma vez por semana, “visitava-me” e mesmo sabendo que eu não tinha resposta para sua pergunta se divertia questionando-me: “tem Anis?”.
Era tão certo que essa seria sua conduta, que ao avistá-lo de longe, procurava um pretexto para não estar por perto quando da sua aproximação. Ele, pelo seu turno, sabendo do meu desconforto vinha se esgueirando com o propósito de surpreender-me com a clássica pergunta, para depois sair sorrindo. Assim, durante muito tempo, sempre nas horas mortas, por volta das quinze horas, recebia eu, aquela “visita”.
Às vezes fazia a pergunta de praxe, sem ao menos olhar para mim, limitava-se a um sorriso sarcástico, dava alguns passos e voltava a cabeça na minha direção na esperança de que eu o estivesse espiando, o que nunca acontecia. Em tais ocasiões, limitava a baixar timidamente a cabeça.
A despeito de sua indiferença ao meu mal estar – acho que nem tanto, a final, nas ocasiões em que eu estava acompanhado ele era suficientemente discreto e passava ao largo – formou-se entre eu e aquele homem uma estranha amizade. Tanto que quando ele sumia ou não tínhamos oportunidade de “falarmos”, sentia sua falta.
Sempre depois dos nossos encontros eu ficava a me perguntar: o que será isso? Será que existe realmente alguma coisa que se chama Anis? Será isso algum cosmético ou algo que se degusta?
Certa feita estava eu em casa, após cumprir as minhas treze horas de jornada, quando ouvi tocar na vitrola de um estabelecimento na época denominado “Clube dos Cinqüenta” e que dava fundos para minha residência, uma música interpretada pelo cantor Nelson Gonçalves que dizia: “... liberte o peito do amargor e da derrota com mais um trago desse traçado de Anis...” Minha casa ficava na Rua José Moreira da Rocha e o clube na Rua Luvina Faria, ambas no bairro Retiro. Imediatamente coloquei-me de pé e saí correndo. Era pequena a distância de onde eu estava até o clube, mas ao chegar ao meu destino, a faixa do Long Play já havia terminado. Insisti com o “Disc Jockey” da necessidade de ouvi-la novamente e após o que eu já não tinha mais dúvidas: Anis realmente existia e se tratava de uma bebida.
Na primeira oportunidade que tive, perguntei a um homem que eu sabia ser experiente nessa área:
– Você já tomou Anis?
– Sim, mas não gostei – respondeu-me desinteressado, sem saber que minha intenção era apenas corroborar a existência da tal bebida.
No dia seguinte perguntei ao meu patrão com ar de sapiência:
– Temos Anis aqui Sr. Liberto? – Ele parou sem se voltar para mim, e eu gelei. Sinceramente não sei o que teria feito se ele respondesse com uma pergunta do tipo: o quê? Mas não foi o que aconteceu. Apenas comprimiu os maxilares franziu o cenho como a raciocinar, sobre o que eu perguntara  e para minha surpresa respondeu:
– Creio que sim, mas... Se tiver – continuou – estará perdido no meio desses vasilhames aí – concluiu apontando na direção de uma imensidão de garrafas armazenadas com o fundo para fora e o gargalo voltado para a parede.
Era tudo que eu precisava, a partir daí transformei aquela adega numa área de “garimpo”. Buscava obstinadamente algum indício que me levasse ao meu “tesouro”. Enquanto isso, meu “amigo” continuava se divertindo com a minha ignorância. Nesse estágio, já nem mais me importava, afinal estava preparando a minha “vingança” e deleitava-me ao imaginar a sua cara quando eu dissesse: sim temos Anis.
Depois de vários dias meu esforço foi recompensado: encontrei não uma, mas duas garrafas do que eu procurava, embora o conteúdo de cada uma delas estivesse abaixo do meio e absolutamente impróprias para o consumo, tamanha a concentração de fragmentos da cortiça que lhes servia de tampa miscuído ao líquido. O rótulo de uma delas estava irremediavelmente perdido, porém o da outra, apesar de também bastante avariado, permitia alguma identificação como, por exemplo, de que se tratava de um produto da marca “Dubar”.
O estágio seguinte seria tornar o que eu encontrara, em algo próprio para o consumo. Tão logo eu começava a manipular o Anis, este exalava um cheiro forte e característico. Assim, para não despertar nenhuma suspeita, “trabalhava no meu negócio” apenas em horários estratégicos: filtrava, aguardava a decantação, refiltrava, reconstituía o rótulo e repeti essa alquimia, até me convencer de que havia chegado ao meu objeto. No exercício dessa minha empreitada, não raro, ria sozinho imaginando a cara do homem quando eu o surpreendesse com a resposta que até então não conseguira.        
Enfim, considerei minha “obra” acabada e o passo seguinte era planejar minha vingança. Agora já sabia que Anis não era necessariamente o plural de anil, o alvejante do qual já me referi, e cuidava para não revelar minha ignorância, para tanto passei a informar-me mais sobre aquela bebida: como era servido, se puro ou com gelo, se misturado, e em que proporção, qual o copo mais indicado e até o preço praticado na época. Isto posto, considerei concluído o processo e decidi que na sua próxima aparição, nosso andarilho teria uma surpresa.
Desde então sempre por volta das quinze horas eu ficava na expectativa de que aquele homem aparecesse. Nunca sua ausência foi tão sentida. Algumas vezes cheguei a pensar que ele jamais apareceria e minha vingança não se concretizaria.
Um dia, como sempre acontecia nas horas mortas das tardes, estava eu com a única indumentária de que dispunha: chinelo de dedo, calça de brim azul com boca de funil e à pelo menos dez centímetros acima do tornozelo, camisa igualmente azul de fustão, curta, muito apertada e com as mangas não se estendendo mais que quatro dedos além dos ombros, “confortavelmente” instalado no suporte de proteção das árvores, com uma das pernas dobrada para trás, os braços magricelas acima da cabeça e os dedos entrelaçados em uma daquelas madeiras, deixando à mostra um abdômen definido e já com uma rasa penugem juvenil.
Contemplava a Paulo de Fontin, como sempre naquele horário, absolutamente deserta. De repente, minha freqüência cardíaca acelerou e comecei a desvencilhar-me do suporte com movimentos lentos como o de um caçador que teme assustar sua presa. Tinha nos lábios um sorriso indefinido e por mais que eu tentasse não conseguia dissimular um leve tremor e uma indelével transpiração. Ao longe e do lado oposto ao  que eu me encontrava, avistara uma silhueta familiar e de quem nos últimos dias aguardava ansiosamente a visita.
Adentrei no estabelecimento a fim de certificar-me de que tudo estava conforme eu planejara. Estava excitadíssimo e pronto para servir a primeira dose de Anis da minha vida. Afinal chegara a hora de ver a cara do magricela, quando lhe dissesse: sim temos Anis. Aliás, nos últimos meses havia ensaiado por demais essa fala.
Com o corpo para dentro e apenas parte da cabeça para fora da porta, o avistei atravessando a Paulo de Frontin, para continuar sua caminhada agora na mesma “calçada” em que eu me encontrava, e aí poder “importunar-me”.
Mais alguns passos e estaria ele a fazer a pergunta de que jamais obteve resposta e sobre a qual hoje teria uma surpresa. Estando tudo conforme planejado só restava posicionar-me atrás do balcão e aguardar.
Parecia que tudo conspirava a meu favor. A Avenida Paulo de Frontin nunca pareceu tão deserta, por isso não foi difícil distinguir o ruído do motor de um Oldsmosbile, um dos poucos automóveis que por ali transitavam naqueles tempos. Era tão pouco o tráfego na tradicional avenida, que me acostumei a identificar o sentido dos veículos – linha férrea ou ponte – à medida que o ruído do automóvel aumentava, pela sua aproximação do local em que eu me encontrava, aumentava minha expectativa. Acompanhei a passagem do carro já posicionado atrás do balcão. Pelos meus cálculos a chegada do meu “cliente” coincidiria com o silêncio pós-passagem do tal veículo, o que a meu juízo, me permitiria aproveitar ainda mais minha “vingança”.
O esperado silêncio se fez notar, porém precedido de um ruído característico de pneus sendo friccionados na pista de paralelepípedo, na tentativa de parar, seguido do baque surdo do choque entre dois corpos.
Abandonei meu “posto”, não querendo admitir que pudesse ter acontecido o que estava a imaginar. Ao chegar à porta do estabelecimento, o motorista do Oldsmobile, um homem gordo e sem pescoço, de cabelo cortado tipo escovinha, já estava prestando os primeiros socorros. De repente, formou-se uma pequena multidão de curiosos, não o suficiente para impedir-me de ver no chão e à distância, um chapéu de feltro surrado, uma bolsa confeccionada de tecido com listras multicoloridas e um corpo inerte sendo colocado sem muito cuidado no carro.
Os comentários dos curiosos variavam: alguns culpavam o motorista gordo e sem pescoço, outros o negro magricela. De comum mesmo, era a opinião quanto ao estado de saúde da vítima, embora alguns mais otimistas admitissem que ele teria alguma chance, caso fosse socorrido rapidamente, mas a maioria intendia que ele já saíra dali morto.
Retornei ao meu posto de trabalho sisudo, sem ânimo, fixava a garrafa de Anis sem conseguir deixar de dividir com ela a culpa pelo ocorrido. Coloquei-a em um canto da prateleira para depois decidir o que faria. Alguns dias depois retornei com ela de onde eu a havia retirado. De início, a garrafa se distinguia das demais por estar limpa, depois ficou igualmente suja e nem esse vestígio restou daquele meu anônimo amigo.
Os dias se seguiram e nunca mais tive notícias daquele que de repente se tornara “meu ídolo”. Experimentava em relação a ele, um sentimento às vezes de respeito: tinha idade para ser meu pai; às vezes de gratidão pela contribuição à minha cultura: sem ele não teria conhecido o tal Anis; às vezes de companheirismo: nas horas mortas das tardes da Paulo de Frontin dos anos sessenta, ele se tornara ainda que por apenas alguns segundos, minha única companhia e principalmente por sua empatia: aquele estranho e misterioso andarilho, não obstante convicto de que desde a primeira vez eu não sabia do que se tratava seu pedido, jamais me expôs ao ridículo. Nas muitas vezes em que ao passar por ali me viu acompanhado, mostrava-se suficientemente discreto, quando muito esboçava alguma reação que só eu entendia.
Meses se passaram, talvez até anos e sempre que às tardes eu me pendurava nas estruturas de proteção das árvores na mais completa solidão, lembrava saudoso do meu pai que havia morrido há pouco, das minhas tardes de outrora com meus colegas e com o queixo encostado no peito, ficava inevitavelmente com os olhos marejados.
Ultimamente esse quadro se agravara, porque agora ao fixar na direção do bairro Niterói lembrava do negro magricela, extremamente alto, com calça e paletó curtíssimo, chapéu de feltro surrado e sua inseparável bolsa com listras multicoloridas. Lembrava com certa timidez, de sua ritualística e irrespondível pergunta, após a qual saía com o corpo em convulsão provocada pelo riso contido.
Nunca mais tive notícias dele. Sentia-me responsável pelo ocorrido e evitava abordar o assunto e assim continuava sem saber sobre seu paradeiro.
Ao longo dos tempos as instalações do até então “Bar e Mercearia São Jorge” sofreram significativas alterações: o balcão de madeira que ficava de frente e recuado em relação à porta de entrada, fora substituído por um de alvenaria revestido de azulejos azuis, que a exemplo daquele do estabelecimento do pôster amarelado, também era muito alto. Cobria toda sua extensão uma pedra de mármore branco e em uma de suas extremidades, a que ficava de frente para a rua, havia um expositor de cigarros, logo em seguida uma vitrine do tipo estufa para salgadinhos, depois um rebaixo onde funcionava a máquina de fazer café. A partir daí o tampão de mármore voltava ao mesmo nível inicial e sob ele situava-se uma pia, sobre cuja bancada, encontravam-se todos os recursos necessários ao serviço do bar, especialmente os copos e as garrafas das bebidas que se serviam em frações.
Pela altura do balcão – e também da minha – era bastante comum, quando da limpeza da pia, eu encostar a fronte na borda da pedra para garantir uma melhor visão nos locais de difícil acesso. Nessas ocasiões, a despeito da posição assumida e o envolvimento com os afazeres, não deixava de perceber a chegada de quem quer que fosse no recinto, isso porque essa presença era denunciada pela alteração da luz no ambiente. Aliás, durante o processo de alquimia para a obtenção do Anis, era assim que me portava, cuidando evidentemente para não revelar meu envolvimento naquele mister.    
Simultaneamente à reforma do bar, fui convidado pelo meu patrão a assumir uma nova função. Eu deixaria de ser “caixeiro” – essa era a denominação que se dava, àqueles que como eu atendiam em balcões de estabelecimentos que comercializavam o que na época se convencionava chamar de “Secos e Molhados” – para trabalhar na operação de um moinho para produção de fubá e seus derivados. Para meu lugar, seria contratado um novo empregado. Assim, durante uma semana ficaria treinando meu sucessor e enquanto ele não chegasse, eu deveria selecionar, arrumar, ordenar e identificar todo material do estoque descartando a meu critério os inservíveis.
A arrumação já estava em fase de conclusão. Faltava retirar apenas um lote de garrafas que ficavam na parte de dento do balcão e que se encontravam de fundos para fora e gargalos voltados para a parede.
Quando alojava em suas caixas essas tais garrafas, deparei-me com uma especial: a de Anis. Por um instante interrompi o que estava a fazer, sentei-me à borda do caixote e fiquei a contemplá-la e o passado recente se fez presente. Lembrei-me de como tudo começou: da confusão que fizera do Anis em questão, com o alvejante de roupas, da música do Nelson Gonçalves e principalmente do fim trágico como tudo terminara. Mais uma vez me dei conta de quanto tempo já havia se passado, e de que jamais tive notícias daquele “meu amigo”. Em breve, com a minha transferência para o outro setor, de tudo isso só restariam mesmo as lembranças.
Envolvido nesses pensamentos, coloquei a garrafa na bancada da pia e voltei à minha tarefa. A partir daquele momento, tornei-me melancólico. A “casa” agora estava com excelente aparência. Na próxima segunda-feira, meu sucessor assumiria e eu me afastaria em definitivo daquele ambiente. 
Se existe uma coisa com a qual eu sempre me identifiquei e que ao admitir agora revelo uma certa “insanidade”, são meus insólitos diálogos com os inanimados. Assim, despedia-me das paredes, das vitrines, das prateleiras e tudo mais que ultimamente se transformara em meus únicos amigos e confidentes e em pleno diálogo onomatopéico, identifiquei sob a bancada da pia, como se dividisse comigo toda aquela nostalgia, a garrafa de Anis. Seu rótulo estava tão avariado quanto da primeira vez que a vi e seu volume e conteúdo cristalino nas mesmas condições em que deixara há tempos atrás.
Mais uma vez dei asas à imaginação e por um instante foi como se ele estivesse à minha frente: chapéu de feltro surrado, calça “pega frango”, paletó com mangas que deixavam à mostra os braços cadavéricos e a inseparável bolsa de tecido decorado com listras multicoloridas.
A Avenida Paulo de Frontim naquele horário como sempre acontecia, estava deserta e o bar no mais absoluto silêncio. Experimentava tudo aquilo, com o sentimento de que o fazia pela última vez. Assim, tomei nas mãos aquela garrafa e com gestos lentos, porém decididos destampei-a e despejei seu conteúdo na cuba da pia. Encostei-me no tampão de mármore do balcão, como sempre fazia para limpar os locais de difícil acesso e enquanto inalava involuntariamente o aroma exalado pelo líquido, assistia o seu precipitar em forma de redemoinho para o ralo que o sorvia como se fosse esse seu último trago.
Estava tão absorto em meus pensamentos, que não me interessei em ser receptivo com alguém – algum cliente – que acabara de entrar.
Como sempre acontecia em tais circunstâncias, eventuais presenças provocavam diminuição da luz no ambiente, por isso, mesmo estando de cabeça baixa as percebia. Aborrecia-me aquela visita. A meu juízo esse intruso estava inoportunamente interferindo na póstuma homenagem que prestava ao meu amigo.
Por um instante esqueci-me de que estava no posto de trabalho e à disposição de quem ali chegasse. Pretendia continuar assim indefinidamente. Tinha esperança de que esse potencial cliente percebesse meu desinteresse e fosse embora, porém como isso não aconteceu, fui obrigado a interromper minha abstração e retornar à realidade. Lentamente levantei a cabeça sem me preocupar em dissimular toda minha insatisfação.
À medida que meus olhos foram se acostumando com o ambiente mal iluminado, identifiquei em contraste com o mármore branco e espalmadas sobre este, duas mãos negras magérrimas, unidas a dois braços igualmente negros e cadavéricos, parcialmente cobertos por curtíssimas mangas de paletó. Em um dos braços havia uma bolsa confeccionada de tecido decorado com listras multicoloridas, por demais familiar.
Continuei levantando a cabeça, que com certeza só não tocou o queixo do homem curvado que me espiava, porque este se afastou deixando à mostra o chapéu de feltro surrado com abas caídas. Sem retirar as mãos do balcão e flexionando como se fosse um ginasta, o homem me fixava como a justificar sua ausência e retribuir toda minha preocupação.
Minha reação era um misto de alegria, surpresa, espanto, ria descontroladamente e esforçava-me para conter as lágrimas. O visitante continuava em silêncio e a insinuar um sorriso afável, como a aguardar que eu recobrasse do susto. Pelo meu turno, questionava a mim mesmo, “será que é ele? Então ele não morreu?”.
Como se adivinhasse meus pensamentos e para evidenciar que ele era real, exibiu os mesmos dentes alvos, o mesmo sorriso contagiante e fez cumprir com peculiar ironia, um ritual que eu já conhecia e que se iniciava com uma pergunta para mim, igualmente familiar:
– Tem Anis?       

 

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