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JJ Sales

O Mistério dos Cachorros

       No início da década de sessenta, ou mais exatamente em mil novecentos e sessenta e três, trabalhava eu em um dos únicos estabelecimentos comerciais existentes, naquele tempo na avenida Paulo de Frontin, em Volta Redonda. Chamava-se “Bar e Mercearia São Jorge”. Alguns anos depois, estabeleceu-se anexo a esse, um açougue cujas instalações eram consideradas modernas para os padrões da época e que adotava para revestimentos das paredes azulejos brancos e pretos, daí ter recebido o sugestivo nome de “Açougue Botafogo”. Seu proprietário era conhecido simplesmente por Zezinho.
Uma prática muito utilizada nos anos sessenta, entre os açougueiros era o de abastecerem seus estoques indo em busca da própria mercadoria em uma das praças concorridas a esse mister, era uma região agro pastoril denominada Nossa senhora do Amparo. As viagens de Volta Redonda até àquele distrito, constituíam verdadeira saga se levasse em conta a precariedade das estradas e os veículos de que se dispunham naquele tempo. Por isso era comum os açougueiros em geral e em especial o Zezinho, quando dessas iniciativas, ausentarem-se às vezes até uma semana e deixar a condução dos seus negócios à cargo de terceiros.
O Zezinho era um homem arredio, tímido quase carente, alto, magro, atlético. Tinha a pele alva, cabelos pretos com corte sóbrio e sempre muito bem penteados, seus olhos negros tal como todos os seus gestos, moviam-se como se estivessem desatentos, mas isso era apenas aparente. Zezinho era astuto como uma serpente e estava sempre atento a tudo que se passava à sua volta, especialmente se esse “tudo” contemplasse o sexo feminino.. Seu figurino preferido era calça e camisa sociais. Se bem que naquele tempo, um homem que ousasse algo mais despojado, teria invariavelmente sua masculinidade questionada. 
Certa feita, dias antes daquele misterioso açougueiro sair para uma dessas viagens, fora presenteado, possivelmente por uma de suas “fãs”, com dois belos filhotes de cães da raça Pastor Alemão. Os animais possuíam porte e beleza que chamavam a atenção e revelavam seu pedigree. Aquele solitário comerciante encontrou nesses dois cãezinhos os amigos de que precisava, por isso, foi difícil para ele tomar a decisão de ter que deixa-los enquanto estivesse fora.
Após avaliar entre os amigo(a)s a quem iria confiar a guarda dos referidos animais, decidiu por uma vizinha e cliente que morava no bairro Aterrado nas imediações entre as ruas Dezessete de Julho e Sete de Setembro.
Na manhã seguinte à primeira noite em que os cães estavam sob sua guarda, esta senhora apareceu visivelmente transtornada: cabelos desgrenhados, respiração descompassada, olhos arregalados, pálida e gélida como uma defunta, abordava os transeuntes com a voz embargada na esperança de que alguém lhe desse alguma notícia confortadora.
Chegou no boteco em que eu trabalhava, com os dedos rigidamente entrelaçados, atônita e insistindo sem sucesso em contar o ocorrido para os poucos freqüentadores que, já àquela hora, ali se encontravam e cujos interesses, eu conhecia bem e podia afirmar: não era definitivamente o de hipotecar solidariedade a quem quer que fosse.
De insucesso em insucesso chegou até a mim, muito mais pela desatenção de seus interlocutores, que propriamente pelo crédito que eu eventualmente pudesse merecer e disse:
– Os cachorrinhos sumiram – anunciou e aguardou angustiada uma resposta que lhe resgatasse as esperanças.
Até àquele momento eu não sabia de nada: não sabia que o Zezinho havia viajado, e se assim fosse, quem ficara com a responsabilidade pela condução do açougue e muito menos, sob a responsabilidade de quem ficaram os tais cachorrinhos, mas.... como eu sabia das constantes incursões do açougueiro e, de que acabara de ser presenteado com aqueles dois filhotes, não foi difícil concluir do que aquela transtornada senhora estava a falar. Assim, levantei o sobrolho e evidenciei toda minha surpresa com uma pergunta:
– Sumiram? Ela continuou quase em pranto:
– Foi durante a noite. Acho que eles passaram através das grades e alguém deve tê-los visto na rua e os recolheu temendo fossem atropelados – discursava esperançosa, e concluía:
– Se você souber quem os pegou, avise-me por favor. – Arrematou iludida e saiu caminhando trôpega e falando sozinha.
Quando o Zezinho ficou sabendo do ocorrido, se comportou como se imaginava: resignado e lacônico, embora tais reações não revelassem seu real sentimento. O Zezinho jamais suspeitou de que aquela senhora tivesse desfeito dos filhotes em seu proveito, assim como jamais deixou de atribuir à sua imprudência o resultado final.
Durante os meses que se seguiram, tudo que se podia fazer para localizar os cães foi feito: mobilizou-se recursos materiais, humanos e até místicos envolvendo novenas, simpatias e outros tantos nem tão ortodoxo, e nada. Os animais desapareceram mesmo.
Ao longo de pelo menos três anos em que trabalhei naquele boteco nunca mais se teve notícias do tais cachorrinhos. Com o surgimento de uma filial, fui trabalhar para esse mesmo empregador em outro endereço. Nesse período o Zezinho vendeu o açougue e as esperanças de saber o paradeiro daqueles filhotes – agora já adultos – cada vez se tornava menos provável.
Depois que deixei de trabalhar para esse meu primeiro patrão e antes de prestar o serviço militar, funcionei como empregado em diversos segmentos profissionais de Volta Redonda, especialmente nas feiras livres e tradicionais estabelecimentos comerciais da cidade para só depois, já na década de setenta ingressar na CSN.
Desde que iniciei minha vida profissional, no saudoso “Bar e Mercearia São Jorge”, e da ocorrência do desaparecimento daqueles filhotes, já haviam transcorrido bem mais de uma década. Nesse período muitas coisas havia mudado, não apenas na “minha” Cidade do Aço, ou no então Estado da Guanabara, mas no Brasil e principalmente no mundo: perdemos uma copa do mundo na Inglaterra, Pelé fez seu milésimo gol, o homem chegou à lua, o Brasil viveu uma revolução, a ponte Rio-Niterói foi concluída, o mundo teve oportunidade de melhor conhecer o Brasil através de fenômenos como: João Gilberto, Maria Ester Bueno, Eder Jofre, e principalmente com o melhor futebol do planeta sagrando-se tri-campeão do mundo, no México.    
Naquele tempo era comum aos recém admitidos na CSN, antes de se fixarem no determinado a “funcionarem” em todos seus setores, No meu caso esse departamento era identificado pelas siglas DCQ (Departamento de Chapas Quentes) e o setor em questão, denominado “Pátio de Placas”.
As instalações sociais do “Pátio de Placas” era igual a qualquer outras dos setores da CSN, destinado à realização de seus processos industriais: possuía sanitários, vestiários e refeitório tão precários quanto aos demais no interior da “Usina” naquele tempo.
No caso do “Pátio de Placas” o seu refeitório, era um cômodo de aproximadamente vinte metros quadrados, com a estrutura super dimensionada, como toda edificação da CSN. As paredes internas eram metade inferior em barra lisa, pintadas de verde e a outra metade superior, inclusive o teto de branco. O piso era de cimento liso e separada do lado externo por uma mureta de uns dez centímetros para evitar a entrada, no cômodo, de águas pluviais.
Possuía uma única porta e as janelas eram do tipo basculantes e situavam-se na parede adjacente à da porta. Ambas, porta e janelas eram protegidas externamente apenas por um beiral de trinta centímetros.
Uma característica de nós, “peões”, que trabalhávamos no setor do “Pátio de Placas”, era nossa indumentária: macacão de brim, casaco de amianto (material antitérmico) e botinas de couro com solado de madeira. As solas de madeira se justificavam pelo fato de que nós transitávamos sobre placas quentes e escórias incandescentes.      
Não obstante suas multifunções, este cômodo era chamado de refeitório, primeiro por ser aí que se tratavam dos assuntos referentes a alimentação – basicamente receber e distribuir as marmitas produzidas no RC (Refeitório Central) – e segundo por ser equipado com uma estufa elétrica, para aquecimento das marmitas daqueles que as trouxessem de casa, um lavatório (não pia) de louça que um dia fora branca equipado com uma robusta torneira de bronze amarelada pelo tempo, além de uma pesada mesa de madeira revestida com fórmica azul e estrutura tubular com arranjos que lhe serviam simultaneamente de pés e bancos distribuídos quatro em cada lado.
Por ser neste local onde se tratava dos assuntos refeições para o setor, era aí que se recebia a “Sopa de Zero Hora”. Naquela época a CSN fornecia aos empregados do turno de zero hora, um repasto que variava de um dia para o outro em dois ou três cardápios, mas basicamente se resumia em: canja de galinha ou mingau de fubá. Em qualquer dos casos o acompanhamento era pão francês invariavelmente murcho.
Embora sendo pouco exigente no que se refere a aparências e demais cuidados com a alimentação, esta sopa, seu transporte, manuseio e aspecto era tão indigno que jamais interessei-me em consumi-la.
Transportada em recipientes (latões) de aço inoxidável, a sopa chegava aos refeitórios setoriais – ou pelo menos no setor “Pátio de Placas” – entre uma e duas da manhã. No momento de sua chegada, o refeitório ficava concorrido e nessas ocasiões era comum encontrar homens paramentados com aqueles trajes e com a cara de quem só acordara para “tomar sopa”.
Dentre os consumidores daquela “ceia”, poucos usavam pratos e talheres, a maioria improvisava: latas de leite em pó, copos de vidro e até o próprio capacete sem a “carneira” (proteção flexível e móvel, cuja finalidade é evitar o contato direto deste com a caixa craniana). Assim, quando os improvisados recursos, possuíam diâmetro inferior ao da concha usada para se servir – o que acontecia na maioria das vezes – para evitar que o excesso “daquilo” caísse fora do recipiente (latão de inox), os usuários cuidavam em mantê-lo sobre o referido latão e aí acontecia o pior: o excesso da sopa antes de se precipitar de volta de onde havia sido retirado, “lavava” as paredes externas das vasilhas e os dedos de quem os seguravam. Por estas e por outras, é que sempre  abdiquei daquela “sugestão gastronômica”. Acompanhava a sopa, como foi dito, o pão francês, que a despeito de seu estado, transporte e manuseio era sempre bem-vindo, afinal, passar a noite acordado dá uma fome de leão, especialmente quando se tem vinte anos.
Apesar de não dispor de recursos que me permitissem tais extravagâncias, ousava na semana que estava de “zero hora”, comprar exatos cem gramas de mortadela e racionar seu consumo em uma ou no máximo duas finíssimas fatias por dia para que ao longo da semana, dispusesse, para acompanhar o pão murcho àquele “nobilíssimo recheio”.
Durante a noite o refeitório ficava apenas com parte de sua iluminação. Este expediente não tinha como objetivo reduzir o consumo de energia ou dissimular suas mazelas mas, sim, torná-la mais confortável e aconchegante para os que utilizavam-no como dormitório, por isso logo após o burburinho inicial com a chegada e a degustação da sopa, o “ambiente” voltava a ficar quase que totalmente deserto e a “maquiagem” da iluminação parcial, contribuía para garantir-lhe um mínimo de dignidade. Esse era o meu momento preferido para comer o pão com mortadela.
Neste dia ao chegar ao “refeitório” avistei em uma das extremidades da mesa azul, dois homens um de cada lado conversando. Conhecia-os, mas não tinha com eles um relacionamento muito estreito. Pertenciam a outra “letra” (horário) e estavam ali certamente por terem trocado o horário.  Cumprimentei-os com um movimento de cabeça e observei que um deles “tomava” sopa no prato, algo incomum. Sentei-me na outra extremidade da mesa incógnito, abri um pão sem auxílio de talher e o recheei para em seguida devorá-lo com avidez.
Os meus colegas de mesa falavam sobre um ocorrido que envolviam a ambos e ainda que não quisesse, era impossível não ouvi-los. Um deles, o mais falante, era moreno, tinha os cabelos crespos e cortados bem baixo. Aparentava um trinta e cinco anos, estatura média e estava um pouco acima do peso. O outro, o que usava prato, parecia não querer conversar e respondia apenas com grunhidos. Tinha a aparência de quem acabara de acordar. Era branco e aparentava a mesma idade e estatura do primeiro. Seus cabelos negros e abundantes, naquele momento meio desgrenhados, caiam-lhe na fronte. Sentava-se à mesa peculiarmente: antebraço esquerdo apoiado horizontalmente à frente do tórax e o tronco inclinado para aproximar do prato, evidenciava uma postura incorreta. 
O mais falante empenhava em fazer o homem que usava prato recordar-se de um tal ocorrido e para isto citava várias referências urbanas. Ao fim de cada explanação questionava ao amigo lacônico se havia se situado. Acho que a resposta era sempre não, porque logo em seguida o mais falante reiniciava, cada vez com mais riqueza de detalhes.
Deu para perceber que o evento ocorrera numa época distante e no trajeto entre a CSN e suas residências. Na verdade o diálogo ou monólogo entre aqueles dois homens não conseguia chamar mais minha atenção do que o esforço de um besouro para vencer o desnível de dez centímetros entre o piso do refeitório e a calçada. Estava decidido que tão logo terminasse meu sanduíche, o ajudaria a ganhar a liberdade.
Neste momento entrou no refeitório o Jorginho Maçariqueiro, um negro de estatura baixa, com seu capacete dotado de elmo (placa com visor de proteção dos olhos e de toda face), que obrigava o usuário, se quisesse uma visualização satisfatória, a manter a cabeça bem voltada para trás.  Sob a indumentária típica dos que naquele setor trabalhavam, ostentava orgulhoso a camisa do Flamengo. Foi até a lata de sopa, agora já vazia e depois até os homens que conversavam, observou com curiosidade e indiscrição. Estes, absortos ao que  ele fazia, o ignoraram. Deu meia volta e deliberadamente, desviou seu trajeto para esmagar com o tacão o pobre inseto, indiferente ao fato de que eu estava a lanchar.
Arrastando as botinas de sola de madeira e exibindo-se como se estivesse numa passarela, “Jorginho” antes de sair do refeitório, voltou ainda mais a cabeça para trás a fim de certificar-se de que eu testemunhara sua providencial contribuição “profilática” ao ambiente. Sinalizou positivo para mim com os dois polegares e com um sorriso dos vencedores, exibiu suas gengivas vermelhas e desprovidas de dentes até a metade.
Saboreava lentamente meu sanduíche, desejando outro, enquanto contemplava o cadáver do besouro. Já passava das duas da manhã. O refeitório estava com a iluminação reduzida e certamente alguém aguardava ansioso que nós três, os dois amigos e eu, nos afastássemos para poder enfim, transformá-lo em dormitório.
Embora me sentisse indiscreto ouvindo o diálogo dos dois amigos, entretia-me com o empenho do homem falante em precisar para seu colega o exato local da tal ocorrência. Às vezes, irritava-me a dificuldade do outro em entendê-lo.
De repente, uma de suas citações referenciais deixou-me perplexo. Parei de comer, como se isso me ajudasse a crer no que eu estava a ouvir. O homem falante ficou de pé e gesticulando como um maestro regendo, apontou com o braço na direção que julgava situar o bairro a que se referia. Nesta altura, mostrava-se especialmente exaltado, principalmente por perceber que afinal seu amigo havia se situado e concluiu com o seguinte comentário:
– ... sabe o Aterrado? – Continuou visivelmente satisfeito, repetindo: 
– ali no bairro Aterrado “pô!”, na rua onde nós, àquela vez, há alguns anos atrás, de madrugada ao “sairmos de zero hora”,  pegamos aqueles dois filhotes de Pastor Alemão...

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