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Sheila Maria da Silva Leijoto

O espetáculo não pode parar

Hoje tem bananada? Tem sim senhor!

Hoje tem goiabada? Tem sim senhor!

Sob as tintas da alegria
na feição mascarada
sofre o homem a ironia
dessa falsa gargalhada.

Palhaço, profissão de fé?
Ou disfarce de aço em que rir é mentir
pois a memória acusa e a consciência é ré
do fardo passado não pode fugir.

Aguarda a hora, no camarim
de entrar em cena para a criançada
e nessa espera, triste e sem fim
a lembrança volta forte e detalhada.

O palhaço afoga-se no pensamento
vendo a mulher amada em agonia
toda a tragédia em compasso lento
surge tenaz e o desafia.

O coração aflito que hoje chora
já pulsou fremente no peito valente
jovem garboso, acrobata, outrora
ganhou sua musa em paixão ardente.

Bela morena de olhar brejeiro
corpo esbelto... meigo semblante
porte altivo... jeito faceiro
fez do acrobata seu fiel amante.

Dupla formosa em sintonia total
no trapézio, empolgava pela graça e beleza
dos arabescos traçados no salto mortal
e delirantes aplausos coroavam a proeza.

Num dia de trevas, ele chegou
o rival sedutor, reles trapezista
predador sem pudor, à mulher se atirou
e a jovem artista se rendeu à conquista.

O parceiro antigo sentiu a chibata
do desprezo que fere e marca em vergão
sugou a amargura do veneno que mata
tem o travo de fel... no sabor da traição.

O tempo passando e alastrando a dor
diluiu emoção, destruiu sentimento
deixou o vazio esvaindo o vigor
energia rompida em total desalento.

No dia fatal, em marcação sincopada
o trio desenhava mil volutas no ar
a platéia aplaudia e gritava, encantada
mas a mortalha do luto já cobria o lugar.

O homem traído e na alma ferido
flutuando no ar e a parceira amparando
sob o olhar do rival que o havia vencido
foi perdendo as forças e o ciúme cegando.

Nessa débil tontura, em fração de segundo
perdeu o senso, o ritmo, a cadência e o impulso
em pesadelo cruel, viu desabar o seu mundo
a mulher foi caindo, perdendo o seu pulso.

No horror do momento, o grito da morte
ecoou no espaço, pedindo passagem
emudeceu as pessoas com seu forte garrote
atingiu o acrobata...destruiu sua imagem.

Esse vulto abatido, palhaço agora
essência perdida em perene agonia
embute a dor que no peito aflora
e veste a roupagem da falsa alegria.

Sob as luzes da ribalta, com jeito matreiro
entre risos e palmas, sempre bem recebido
nesse reino de fantasia, é o rei do picadeiro
gritando em falsete para o público querido:

Hoje tem marmelada?

O show da vida sua parcela vem cobrar

e o espetáculo não pode parar...

 

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